quinta-feira, 10 de junho de 2010

Presente !

- De novo aqui! – falou aquela que preserva tudo do esquecimento - Sua esposa confia em você?
- Desconfiança mais cruel é a da nossa em você. – retrucou Zeus mecanicamente.

Ambos na sala de estar vivem momentos distintos. Zeus ansioso de comunicação enquanto Mnemósine só se preocupa em provocá-lo.

- Tas parecendo Hefesto, todo contorcido no meu sofá cutucando o mindinho. Logo hoje que programei depois do chá matinal fumar aquele charutão. Gosto de fazer fumaça. Agora diz criatura, Hera te deixou?
- Mnemósine! Você sempre erra suas interpretações quando não olha os detalhes. Mnemósine! Voluntariamente você vacila e se afasta do que busca.
- Quero amor. Não quero ajuda, muito menos conselhos de um desesperado. – ressentida começa a fazer fumaça e reflete sobre as sugestões do seu amante.
- Quero ver você forte. – ele Levanta-se, aproxima-se dela - O que será das minhas proezas sem você?
- Todos só querem-me explorar.
Zeus não dar ouvidos e continua - Questiono quando você me diz que matei o tempo. – enquanto debocha de Mnemósine dar vazão a sua própria dúvida.
- Porque te preocupas com isso? Você acha que aquilo é o grande feito que resume a sua vida? – a personificação da memória rebate com tom de superioridade.
- Cale-se! Você estava longe dali em termos de espaço e de tempo.
- Mas só assim consigo transformar qualquer coisa em infinito.
- Porém se eu matei Cronos, isto não foi qualquer coisa.
- A lenta marcha do tempo apaga coisas que as pequenas mentes consideram eternas e trás com força pequenos detalhes maiores que o tempo.

Enquanto isso ela passeia com Cronos e pergunta.

- Por que Hera te deixou?
- Por acaso cheguei com fome? Você observou que eu não quis conquistar-te com a fumaça do meu cigarro? Mnemósine, você está morrendo?
- Já sei tudo Zeus. Sei que Hera pela manha fica contemplando os pavões. Você aproveita e tenta parar, me procura, e busca viver.

Zeus deita-se, seu corpo imóvel, só escuta. Ele agora também está passeando com Cronos. Mnemósine continua a falar, com autoridade que toda mulher tem quando o marido já se rendeu.

- Você não fumou hoje porque ainda está de jejum, pois seu nervosismo fez com que você não se alimentasse e você não fuma de estômago vazio. Sei de tudo isso por que estás com um bafo de quem dorme vários dias seguidos, mesmo sabendo que não dormisse, já que ao anoitecer, antes de ir trabalhar, Morpheus passa aqui para pegar algumas ferramentas e me disse que não iria visitar-te.

Zeus no sofá, ainda imóvel, começa a sussurrar:

- Ontem vi algumas de nossas filhas Mnemósine! - trêmulo, Zeus, não consegue frear seus sentimentos. - Vi as musas das artes. Elas me fizeram crer que sem elas não existo. Eu as criei? Elas criaram-me?

Mnemósine, involuntariamente, o chacoalha pelos ombros, estando face a face e, gritando, ela afirma.

- Zeus! A vida é maior que você!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Evoé Baco! Oxalá Iemanjá!

Quando o Brasil viveu, a ditadura Vargas, Pernambuco teve como interventor Agamenon Magalhães. Com a sua mania de organizar tudo, tentou dar uma lógica ao carnaval de Recife que, segundo o próprio, deveria civilizar-se. O Estado já exercia o controle sobre o carnaval, por intermédio da Federação Carnavalesca Pernambucana, no qual censurava músicas e blocos. Porém, foi através do seu discurso e com o apoio da imprensa que causaram danos maiores. A critica que fazia ao frevo era bastante severa, nos quais os termos: “loucura da gentalha” e “o brincante é malandro e catimbozeiro”, era uma constante na segunda metade da década de 30 do século XX. O frevo passou a ser considerado a alma mestiça do povo. Razão pela qual a descendência branca brincava nos seus clubes sob um ritmo nobre e civilizado, o jazz.

No final da década de 80 do século passado, nos becos e nos bares do Recife, foram surgindo grupos que reagiam com a mesma intenção, sem almejar arquitetar uma conspiração. Com uma vontade quase que insana de injetar um pouco de caos nessa lama, numa diversão levada a sério, como os próprios afirmaram posteriormente. Esse bando tão facilmente denominado de manguebeat pela imprensa, é de tamanha complexidade a sua estrutura, em que opto por chamar de um não-estilo, não vindo, eu, aqui para fazer comparações esdrúxulas com o movimento punk.

Indivíduos, na sua maioria, residentes na periferia, sujeitos suburbanos na pele, abalaram as diversas camadas da sociedade, só sendo possível tal proeza por possuírem cérebros urbanos, consumindo artes pouco acessíveis na época, infiltram-se aos poucos no centro, numa espécie de um câncer “benigno” e sem cura, entrando em condomínios e nos morros, com as suas mais variadas faces, tornando-se assim mais incompreensível ainda. Numa cidade que sempre teve dificuldade em criar fronteiras, hoje se tornou um labirinto, sem cheiro e sem cor, aonde não é possível saber a sua provável localização. Contudo, você irá se encontrar, enxergando-se situado no ponto fixo, num hotel classe média, ao folhear um manual de guia turístico da cidade, onde o cliente irá encontrar uma cultura popular muito bem lapidada. Um verdadeiro show de fotografia e photoshop, exercendo com maestria sua função de direcionar olhares.

Em boa medida, o carnaval de hoje é reflexo desse movimento da década de 90, no qual há mais diferenças do que semelhanças em relação ao carnaval de 1938, citado no início do texto. Não sabemos ao certo as verdadeiras causas. Mas aparentemente, a morte de Chico Science, na semana pré-carnavalesca de 1997, tem uma monstruosa força simbólica no imaginário popular de Pernambuco, que a partir daí começa a fazer uma relação do movimento com o período. É mais uma vez o acaso moldando a história.

A mão invisível, que tudo rege, também dar o ar da sua graça na festa de momo, porém não é suficiente para moldá-lo por completo. Isto fica perceptível ao lançar o olhar para o cartão postal do carnaval, o palco principal, aonde os espetáculos acontecem, sendo aplaudidos por uma multidão, transmitidos ao vivo em rede nacional em TVs abertas. O assustador é saber que, as atrações em sua maioria, não representam a cultura de massa. Esses artistas, são sufocados pelas grandes corporações da mídia, não tendo acesso nem ao menos em programas de rádios e TVs locais, só sendo possível a veiculação através dos meios de comunicação alternativos e comunitários.

Esse cenário traz ao o observador a sensação de que algo está para ruir. Um efeito de inconstância que leva o homem mais próximo de si. Em um grande duelo entre: o industrial e o não-mecânico; colonial e o moderno; tecnológico e o primitivo; planejamento e o acaso.

Essa tragédia grega mitológica faz do carnaval uma arte. Com Apolo de joelhos na lama aos prantos de cabeça baixa e com as mãos tremula sem força para fugir, mas, mesmo assim ele sorrir. Pois Dionísio está com seus dias contados.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Anarquia da inteligência


O sábio é único

O único é diferente

O diferente é louco

Loucura é moléstia



Se você pensa assim... parabéns... você é um bom fascista

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Honoré não ensina



Voltei!

Longe de tudo, reconheci multicores

Na insignificância, encontrei o necessário

Na solidão. Nasci!

Como foi fácil viver


Num local aonde só tinha areia e sol

Perdi a batalha para o astro Rei

A magia solar perfurando-me

No eterno retorno

Vivia várias vidas


No deserto

Há tudo e não há nada

O deserto

É Deus sem os homens!

.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Há ou não há. Eis a questão.


As vezes eu desprego-me e me desprezo

Só assim destroçado e dilacerado

Viro fragmentos ao ar

Quase um pó

Talvez agora rir

Calmo

Apreciando o caos

Infinito está presente

O agora

É o que basta

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Consciência como utilidade pública.

“Cada um de nós coloca em comum a sua pessoa e todo o seu poder, sob a suprema direção da vontade geral, e nós recebemos em corpo cada membro como parte indivisível do todo.”
J.-J. Rousseau


Uma das principais características da democracia é que o governo, no qual o poder e a responsabilidade cívica são exercidos por todos os cidadãos, sendo protegida a liberdade do cidadão.
Cada membro do corpo-político é simultaneamente soberano e súdito, isto é, soberano porque o sujeito cria as leis e súdito porque ele é obrigado a seguir essas leis. Tudo decorre do livre compromisso de quem se obriga. Cada um, dando-se a todos, a ninguém se dá. Um cidadão estando sujeito as leis, na verdade ele está livre, pois cada um unindo-se a todos só obedece no entanto a si mesmo, permanecendo livre.
Essas leis só serão compatíveis com os seus interesses se o cidadão souber o que é o melhor para ele e para a sociedade, sempre o interesse coletivo sobrepondo o interesse individual. O indivíduo só irá saber o que é melhor para ele e para sua sociedade, se ele tiver um mínimo conhecimento em relação ao homem e o Estado em que vive.
Só um povo forte terá boas leis.

Não existe democracia enquanto a ignorância é celebrada.
A população tem que ter papel fundamental, porem, o povo brasileiro não estar acostumado a dirigi a si próprio e participar ativamente da política e com o povo as margens das decisões políticas fica difícil consolidar uma democracia.
Herança da escravidão? Herança da ditadura? Ignoro-o, não quero saber. O fato é que o povo brasileiro segue linhas demarcadas e nem de longe desconfia.
O brasileiro não come o que quer. Não veste o que quer. Não pensa o que quer.
Não sabe quem é!
Não podemos aplaudir a democracia enquanto a ignorância é exaltada.


“Toda lei, não ratificada pelo povo em pessoa, é nula. Não é lei.”
J.-J. Rousseau

terça-feira, 24 de março de 2009

taças e tapas.

tapas e taças.

Um dia aconteceu uma guerra em Recife que nunca foi falada, mas eu sou um pouco ousado no meio desses “intelectuais” de palavras bem medidas e de elogios desmedidos, com sorrisos soltos pelo ar. Essa guerra aconteceu quando os holandeses se instauraram de fato em Recife, Nassau era o soberano do Brasil holandês, um período que para muitos foi de paz e prosperidade, Recife de Nassau a maior centro cosmopolita das Américas, não estava tão em paz assim. Porque de um lado as taças, copos e bocas tinham líquidos destilados e em outros fermentados, estava a disputa solta pela cidade, nas esquinas, nos puteiros, nos bares, nos palácios, nos mocambos, nas igrejas, na casa-grande. O vinho contra a cerveja, quem vencerá? Você toparia apostar? Apenas uma regra no jogo: sóbrio não joga.

Os latinos consumidores habituais e moderados do vinho, os germânicos povos do centro e do norte da Europa, tradicionais bebedores de cerveja e grandes adeptos dos excessos etílicos. Os portugueses bebiam em taças, sempre sutis, pois faltava grana. Mulheres não entravam, eles eram muito “machos”, sempre com muito respeito ao nosso senhor e com muita conversa afiada. Conspirações? Os holandeses viviam em mares de cerveja, pobres soldados, esquecidos na América, sem esperança de voltar pra casa, porem, nunca triste, goles constantes em forma de homeopatia matando a tristeza e trazendo coragem, fazendo gritar evoé Baco.

O português afirmava – São uns beberrões, hereges, filho de satãgoz. Você acredita meu filho, que eles invadem a igreja encapetados só para roubar a taça do padre. Aonde era para estar o sangue de cristo, agora está a bebida dos Bárbaros.

O holandês rebatia – São umas lolitas loucas desvairadas mesmo, só porque não são filhos de Dionísio, fica com pecuinha com chacotas, eita inveja silvestre. Faço questão de gastar todo meu ouro em putas, dados e cervejas... muitas cervejas...

Se eu fosse convidado para um banquete nessa situação do recife holandês, eu sentaria a mesa e pensaria que modos seguir. Diferenças em torno do que se deveria fazer em uma mesa, e do que se deveria fazer com uma garrafa.
Misturava geral pra depois vomitar a beira do Capibaribe? Recusaria e pediria um suquinho de pitomba?
Não. Pediria um whisky! Beberia puro e falaria para eles – Que mediocridade!