Quando o Brasil viveu, a ditadura Vargas, Pernambuco teve como interventor Agamenon Magalhães. Com a sua mania de organizar tudo, tentou dar uma lógica ao carnaval de Recife que, segundo o próprio, deveria civilizar-se. O Estado já exercia o controle sobre o carnaval, por intermédio da Federação Carnavalesca Pernambucana, no qual censurava músicas e blocos. Porém, foi através do seu discurso e com o apoio da imprensa que causaram danos maiores. A critica que fazia ao frevo era bastante severa, nos quais os termos: “loucura da gentalha” e “o brincante é malandro e catimbozeiro”, era uma constante na segunda metade da década de 30 do século XX. O frevo passou a ser considerado a alma mestiça do povo. Razão pela qual a descendência branca brincava nos seus clubes sob um ritmo nobre e civilizado, o jazz.
No final da década de 80 do século passado, nos becos e nos bares do Recife, foram surgindo grupos que reagiam com a mesma intenção, sem almejar arquitetar uma conspiração. Com uma vontade quase que insana de injetar um pouco de caos nessa lama, numa diversão levada a sério, como os próprios afirmaram posteriormente. Esse bando tão facilmente denominado de manguebeat pela imprensa, é de tamanha complexidade a sua estrutura, em que opto por chamar de um não-estilo, não vindo, eu, aqui para fazer comparações esdrúxulas com o movimento punk.
Indivíduos, na sua maioria, residentes na periferia, sujeitos suburbanos na pele, abalaram as diversas camadas da sociedade, só sendo possível tal proeza por possuírem cérebros urbanos, consumindo artes pouco acessíveis na época, infiltram-se aos poucos no centro, numa espécie de um câncer “benigno” e sem cura, entrando em condomínios e nos morros, com as suas mais variadas faces, tornando-se assim mais incompreensível ainda. Numa cidade que sempre teve dificuldade em criar fronteiras, hoje se tornou um labirinto, sem cheiro e sem cor, aonde não é possível saber a sua provável localização. Contudo, você irá se encontrar, enxergando-se situado no ponto fixo, num hotel classe média, ao folhear um manual de guia turístico da cidade, onde o cliente irá encontrar uma cultura popular muito bem lapidada. Um verdadeiro show de fotografia e photoshop, exercendo com maestria sua função de direcionar olhares.
Em boa medida, o carnaval de hoje é reflexo desse movimento da década de 90, no qual há mais diferenças do que semelhanças em relação ao carnaval de 1938, citado no início do texto. Não sabemos ao certo as verdadeiras causas. Mas aparentemente, a morte de Chico Science, na semana pré-carnavalesca de 1997, tem uma monstruosa força simbólica no imaginário popular de Pernambuco, que a partir daí começa a fazer uma relação do movimento com o período. É mais uma vez o acaso moldando a história.
A mão invisível, que tudo rege, também dar o ar da sua graça na festa de momo, porém não é suficiente para moldá-lo por completo. Isto fica perceptível ao lançar o olhar para o cartão postal do carnaval, o palco principal, aonde os espetáculos acontecem, sendo aplaudidos por uma multidão, transmitidos ao vivo em rede nacional em TVs abertas. O assustador é saber que, as atrações em sua maioria, não representam a cultura de massa. Esses artistas, são sufocados pelas grandes corporações da mídia, não tendo acesso nem ao menos em programas de rádios e TVs locais, só sendo possível a veiculação através dos meios de comunicação alternativos e comunitários.
Esse cenário traz ao o observador a sensação de que algo está para ruir. Um efeito de inconstância que leva o homem mais próximo de si. Em um grande duelo entre: o industrial e o não-mecânico; colonial e o moderno; tecnológico e o primitivo; planejamento e o acaso.
Essa tragédia grega mitológica faz do carnaval uma arte. Com Apolo de joelhos na lama aos prantos de cabeça baixa e com as mãos tremula sem força para fugir, mas, mesmo assim ele sorrir. Pois Dionísio está com seus dias contados.